Escalando o Mount Elbrus!!!

Depois das 31hras de trem cruzando a Rússia de norte a sul, 2 horas de Van e tudo isso sem saber mais do que 5 palavras em Russo, chego em Terskol aos 2100m. Vilarejo mais próximo do Mount Elbrus. A escalada parecia ter se tornado fácil, agora era só uma montanha a ser escalada.

Ainda sem acreditar que tinha finalmente conseguido chegar lá, já na manha seguinte tento me informar onde conseguiria alugar os equipamentos para a escalada. Descubro a agência 7 Summits em Cheget, vilarejo bem próximo de onde estava. Únicas pessoas que encontrei que falavam inglês em todo o vilarejo e me ajudaram bastante com o máximo de informação que puderam.

Já deixei minha lista nada pequena de equipamentos reservados para pegar no próximo dia e ainda um pouco cansado da longa viagem de trem, me mando para o primeiro dia de aclimatação.

Dia 1 – Aclimatação

3300m no Cheget Peak, montanha próximo ao Mount Elbrus onde a subida é feita a maior parte por teleférico. Não chego a alcançar o cume de 3700m pois já estava bem atrasado para pegar o ultimo teleférico as 4:00pm, mas mesmo assim foi muito bom para já sentir um pouco a altitude e se acostumar com a “brancura” da neve, além de ter uma vista perfeita do Mount Elbrus, que ficou claro que não seria “somente escalar uma montanha” haha…

 

Dia 2 – Organizar Equipamentos – Aclimatação

Com a noite de sono já não tão boa como antes, ainda sim tento dormir o máximo que pude, seria a ultima noite “tranquila”.

Levanto na hora do almoço e começo os preparativos. Vou ao clube de resgate do Mount Elbrus e faço meu cadastro informando minha data de ida e volta prevista, compro os “mantimentos” para todo o percurso (basicamente chocolates e amendoins), finalmente pego os equipamentos que havia reservado e arrumo minha mala.

Para aqueles que tem curiosidade vai a lista de equipamentos alugados:

  • Bota dupla plástica
  • Crampons para neve – Aqueles grampos da bota pra andar na neve
  • Piolet – Parecido uma picareta usada para escalada no gelo
  • Polainas
  • Bastões de escalada
  • Óculos para neve
  • Luva térmica
  • Luva a prova d’agua e vento
  • Jaqueta Down – Bem quente para alta montanha

Total: R$130 p/dia X 3 diárias = R$390,00

*Comparado com que esperava foi bem barato, mas lembrando que a lista de equipamentos é muito maior, mas eu já tinha grande parte deles.

 

Dia 3 – Partida para o “acampamento base” – Aclimatação

Acordo cedo, mesmo depois de uma longa noite de pouco sono de tanta ansiedade, ao som de Xavier Rudd – Follow the Sun começo os alongamentos e praticamente uma meditação.

Finalmente chegou a hora, iria finalmente pisar no Mount Elbrus e só voltaria para o “mundo” depois de ter chego ao topo da Europa, ou pelo menos tentado o meu máximo para isso.

Mala arrumada, café da manha tomado, começo os 4km de caminhada para o bondinho que me levaria ao teleférico até o acampamento base.

 

Chegando lá, já suando com o peso da mala, pego o primeiro bondinho que partiria dos 2350m e iria até aos 3000m e ao mesmo tempo a baldeação para o próximo bonde que levaria até os 3500m.

 

Já sentindo bem a altitude e o frio vou para a última “pernada mecânica” usando o último teleférico que me levaria finalmente ao acampamento base aos 3800m.

 

Chegando ao “acampamento base” aos 3800m fico feliz de ver que o “acampamento” na verdade não tinha nada de acampamento. Um pequeno chalé ao lado do “The Barrels Hut” na base da montanha onde alugavam alguns beliches para os montanhistas por R$45p/noite e ainda vendiam sopa e chá quente, que seriam todas minhas refeições durante os próximos 3 dias =)

DSC_0036

 

Após os 100m de caminhada até o chalé já preciso parar para respirar por alguns minutos, deixo a minha mala, e logo vou para o primeiro ataque a montanha mas por enquanto só para aclimatar.

Usando pela primeira vez os crampons e na verdade praticamente andando na neve pela primeira vez, planejava ir até ao The Diesel Hut, 4100m. Com a neblina chegando e eu já sentindo bastante a altitude chego próximo aos 4050m e decido voltar.

 

Voltando a base conheço meus colegas de quarto. No total éramos seis, um Russo acompanhado de dois guias que iriam tentar o cume naquela mesma madrugada e um americano também com seu guia que iriam no mesmo dia que eu havia planejado.

Dia 2 – Aclimatação

Com as noites de sono cada vez menos prazeirosas, mas já aclimatado com a atual altitude, acordo na manhã seguinte bem curioso para saber como a equipe do Russo estava indo na tentativa do cume e decido ir logo cedo para o segundo dia de aclimatação. Dessa vez a meta era Pashtuhova Rocks, 4700m.

Apesar de ser incrível como havia se tornado mais fácil chegar até os 4100m que um dia antes parecia quase impossível, foi um LONGO dia. Dessa vez já carregando minha mochila com os equipamentos que iria usar no dia da escalada para já ir acostumando com o peso e preocupado em me desgastar demais antes do grande dia decido voltar uns 100 metros de altitude antes do programado.

DSC_0057

 

No caminho de volta me encontro com o Russo que havia tentado fazer a escalada naquele mesmo dia também voltando para a base mas com a aparência de bastante acabado. Ainda que eles utilizaram a ajuda dos Snowcat (espécie de trator de neve) para leva-los até os 4700m, só um dos guias alcançou o cume, infelizmente ele e um de seus guias não conseguiram chegar, se sentiram muito mal com a altitude e tiveram que voltar faltando apenas 350m para o cume.

Isso acabou me deixando um pouco assustado, mas como por experiência própria se tratando de mau de altitude tudo é muito relativo, não tinha com o que eu me preocupar até sentir por mim mesmo como seria.

Dia 3 – Repouso

Mesmo bem desconfortável com a respiração forçada durante as noites, consigo ter uma boa noite de sono =) o que foi ótimo, porque seria a última. Iria fazer a tentativa do cume naquela madrugada.

Passo praticamente o dia todo dentro do quarto descansando, lendo e dormindo.

Dou a última checada na previsão do tempo e estava OK (-21˚C no cume com sensação térmica de -26˚C, não muito vento e não tanta neve). Mas apesar de ser difícil prever o clima nas montanhas, tudo indicava que seria o último dia de boa previsão daquela semana.

DSC_0489

 

Conversando com o americano e seu guia eles me convidam para se juntar a eles na escalada. Apesar de parecerem ser bem gente boa acabo recusando. Eles iriam usar a mesma ajuda do Snowcat que o outro Russo utilizou.

Além de ser caro até então era bem contra essa ideia. Com o Snowcat te levando até os 4700m, as vezes até os 5000m,  iriam escalar apenas os últimos 700m finais. Achava isso bem injusto mas  logo isso iria ser provado o contrário.

Vou para cama as 6pm na tentativa de dormir, amanha seria um longo dia.

Dia 4 – MOUNT ELBRUS, O GRANDE DIA

25 de maio de 2015, despertador tocando inutilmente a 01:00am.

Não consegui dormir nem um segundo de tanta ansiedade. Começo os preparativos colocando todo o meu “armamento” de frio, deixo os 3800m da base e começo a escalada as 02:00am.

Chegou o grande dia!!!! Sozinho na escuridão total, apenas com as estrelas e a luz de minha lanterna refletida na neve, são assim minha próximas 3horas.

Apesar de parecer assustador, tudo ia muito bem até perceber que de alguma forma deixei cair uma de minhas luvas no caminho. QUE MERD@#$%!!!!!!! Já estava caminhando por mais de uma hora, e voltar para procurar seria praticamente abandonar a escalada e ainda com chances mínimas de encontrar naquela escuridão e com ventos fortes.

Depois de algum tempo decidindo o que faria, tenho a “brilhante” ideia de embalar minha mão com o saco estanque que estava levando assim que o frio aumentasse e resolvo continuar.

Lembrando das inúmeras histórias de amputações por congelamento em montanhas, a partir dali toda a confiança que estava levando foi despedaçada e minha cabeça se encheu de preocupações, sem saber se o saco estanque realmente funcionaria contra o vento e frio, se isso realmente tivesse que ter sido posto a prova teria passado por sérios problemas, atitude um tanto irresponsável, tenho que admitir.

Divino, sorte, destino, chame como quiser mas por volta das 04:00am com os Snowcats começando a subir com grande parte dos montanhistas, um dos motoristas percebe que eu estava apenas com uma das luvas, me chama e para o Snowcat. ELE ENCONTROU MINHA LUVA NO CAMINHOOO!!! Não sabia como agradecer…. e não sabia mesmo… não falo russo!!! Haha…

A partir daquele momento estava determinado, iria subir aquela montanha e iria até o fim!!!

Foram longas horas de caminhada com muitos altos e baixos. Dores de cabeça, enjôos e tonturas súbitas. Foi uma verdadeira guerra mental e física, com intervalos para respirar e descansar a cada 20 passos contados e sentindo pela primeira vez na vida uma real vontade de desistir.

Mas bastava sentar e olhar pra trás, ver todo o caminho que já havia feito, a cordilheira de Cáucaso, o nascer do sol aos 5000m e…. “CARALH@#$% EU TO NA RÚSSIA!!!! Não cheguei até aqui pra nada e não sei quando terei a chance de voltar… talvez nunca!!!” Logo todo o mal-estar já havia passado e passo a passo voltava a escalar.

 

Chegando aos 5400m no vale entre os cume Leste 5621m e o Oeste 5642m, me encontro com o americano e o seu guia, como haviam pego carona com o Snowcat começaram a escalada mais tarde e ganharam um boa vantagem de tempo. Estavam descendo do cume e eu era o ultimo a caminho de lá. Me desejaram boa sorte e logo seguiram em frente.

Já bastante fraco, com toda minha água congelada na garrafa, resolvo deixar minha mochila lá mesmo e atacar o cume livre com apenas meu Piolet em mãos.

Levo quase 3 horas para os últimos 240m com 45˚ de inclinação e praticamente engatinhando já praticamente sem força alguma CHEGO AOS 5642M, CUME DO MOUNT ELBRUS!!!

DCIM102GOPRO

 

A exaustão era tanta que me faltava forças para ficar de pé e ainda duvidava se conseguiria fazer o caminho de volta, mas apesar de estar completamente nublado a sensação era tão indescritível que se precisasse simplesmente ficar por ali estaria feliz!!!

Fico deitado sozinho por lá contemplando aquela paz que era tanta que cheguei a cochilar por alguns minutos.

Ao passar um filme na minha cabeça de toda a “jornada”, relembrar de todo o tempo e esforço perdido para tentar fazer algumas gravações e tirar algumas fotos, queria poder compartilhar tudo isso!! Era hora de voltar!!!

Completamente com o piloto automático ligado e tirando forças do além, começo o percurso de volta. A cada passo abaixo apesar da minha respiração se tornar mais profunda, minha exaustão física também ficava ainda maior.

Logo no inicio acabo tirando meu óculos escuros para enxergar melhor, estava no meio de uma nevasca e densa neblina com no máximo 30m de visibilidade. Apesar de estar cansado de saber dos perigos de andar sem óculos escuros ao meio da neve o cansaço era tanto que isso acabou passando despercebido durante todo o caminho de volta.

18:30hrs já praticamente sem acreditar que aquilo terminaria, o que levaram 11:30hrs para subir, foram 04:30hrs para descer. Estava seguro e de volta ao acampamento base.

A exaustão era tão grande que mal conseguia tomar a sopa quente que tanto desejava. Seria a minha ultima noite no Mount Elbrus, tudo ainda muito confuso e difícil de acreditar, mesmo próximo do meu limite físico, com os olhos queimados do sol refletido pela neve (consequência de ter esquecido de recolocar o óculos na volta) levei horas para conseguir dormir.

26 de maio de 2015, ainda com os olhos bastante irritados e mal enxergando (o que só melhorou após o terceiro dia) estava voltando para Moscow após ter pisado no teto da Europa!!! E apesar da facilidade técnica, segundo Boris Tilov, chefe de resgate do Mount Elbrus, a mudança de temperatura súbita da montanha a torna uma das mais mortais do mundo matando uma média de 15 a 30 montanhistas despreparados por ano (Veja a entrevista em inglês).

Agora o que resta serão lembranças, mas lembranças que irão me acompanhar para sempre. Mount Elbrus a montanha mais alta da Europa!!! Só restam 6!!! =D

5642

 

Vídeo resumindo os 10 dias de aventura pela Rússia em 6min!!!

Comentários

Comentários

One Comment on “Escalando o Mount Elbrus!!!

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: